Em Moscou, um hospital público ‘modelo’ na linha de frente contra o vírus

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Funcionários se preparam no hospital Spasokukotski de Moscou, em 22 de abril de 2020

Uma ala inteira do hospital público Spasokukotski de Moscou foi convertida em um serviço de doenças infecciosas. Menos de uma semana após a abertura, quase todos os leitos já estavam ocupados por pacientes com COVID-19.

“Iura”, “Masha”… Somente os apelidos rabiscados nas costas permitem distinguir o pessoal médico em seus trajes de proteção que entram na “zona vermelha”, onde estão os pacientes infectados com o novo coronavírus.

Moscou é o principal foco epidêmico na Rússia, com mais da metade das 555 mortes e das 63.000 infecções.

No hospital Spasokukotski, os pacientes já ocupam 406 dos 434 leitos disponíveis há uma semana. E as olheiras do pessoal da saúde são profundas.

Dmitri Alayev, de 35 anos, cirurgião gástrico, agora é responsável por uma seção que atende cerca de 40 pacientes. Após sete horas de serviço, tem um intervalo de meia hora, antes de retornar.

“O trabalho não é fácil, com trajes, máscaras, etc. Mas os cirurgiões estão acostumados a trabalhar nessas condições. O difícil é ficar longe da família, em isolamento”, diz o jovem médico.

O pessoal que lida com a COVID-19 foi para hotéis para evitar infectar seus parentes.

– Medo da contaminação –

Com seus recursos financeiros incomparáveis na Rússia, Moscou é apresentada pelas autoridades como o modelo para combater a epidemia.

Em Spasokukotski, não faltam equipamentos de proteção, dizem os médicos durante uma visita supervisionada organizada para a AFP pelo Departamento de Saúde da capital russa.

Há gavetas cheias de máscaras, óculos, jalecos e capas de sapatos. Mas esse não é o caso em toda Rússia. De acordo com os depoimentos coletados pela AFP e pelos sindicatos da saúde, muitos médicos denunciam escassez de material, que pode transformá-los em vítimas e vetores de contágio.

O médico Alayev diz que ele e seus colegas permanecem “muito otimistas, apesar das circunstâncias”, embora admita ter medo. “Quando analisamos a taxa de infecção dos médicos, acho que a situação será bastante séria”, desabafa.

O Ministério da Saúde não publicou nenhuma estatística a esse respeito, mas dezenas de casos foram relatados pelo pessoal da saúde e pela imprensa local.

“Condições únicas foram criadas aqui para receber os pacientes”, diz Alexei Pogonin, médico-chefe do hospital e vice dos serviços de saúde de Moscou, que se abstém de comentar sobre as condições de seus colegas em outras partes da Rússia.

“Nós temos um protocolo estrito. Uma vez equipados, o pessoal de saúde espera em frente à trava de segurança pelo tempo exato de seu serviço, inscrito no peito com feltro vermelho”, explica.

De acordo com Pogonin, os pacientes também estão em condições incomuns de conforto nos hospitais públicos russos, supostamente decrépitos após anos de cortes no orçamento.

Os funcionários do hospital têm áreas de descanso onde, vestidos de pijama xadrez, comem refeições, ou leem livros disponíveis, de Dostoiévski a romances diversos.

Diante de um futuro incerto e longe de seus entes queridos, a equipe deve “ser emocionalmente apoiada”, diz a enfermeira-chefe Oksana Barichnikova, de 43 anos.

“Percebemos que somos uma grande equipe, uma família”, diz ela.

Ninguém fala sobre o futuro. O que acontecerá se o hospital e Moscou ficarem sem vagas? No ritmo atual, os 80.000 leitos disponíveis na Rússia serão preenchidos em três ou quatro semanas, segundo as autoridades.

Source: Via Muck Rack